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Melancolia em abril

Nesta sexta-feira, 13 de abril, Melancolia, de Lars Von Trier em exibição na sessão de Cinema e Psicanálise. O encontro, promovido pela Escola Brasileira de Psicanálise, tem início às 20h com a exibição do filme e posterior comentários de Ruth Jeunon. Os ingressos estão a venda na Aliança Francesa, a R$10/R$5 (meia).

“… que o universo não é senão
um defeito na pureza do Não-ser”.

Paul Valéry

Melancolia, 136m. 2011 (Dinamarca/Suécia/França/Alemanha). De Lars von Trier, Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland. Fotografia de Manuel Alberto Claro.

Ao afirmar que “a depressão é o fim do mundo”, Lars Von Trier nos dá a medida de sua intensão ao fazer este filme. Sem nenhuma dúvida o filme plasticamente mais belo de sua carreira, nele vamos assistir ao fim da Terra, engolida que será pelo planeta Melancolia, dez vezes maior do que ela. Mas nas palavras do próprio Lars Von Trier, esse não é um filme-catástrofe, já que o que interessa aqui não é o que vai acontecer, mas como cada personagem responderá aos acontecimentos.

Lançado em 2011, no Festival de Cannes, o filme suscitou críticas em sua maioria positivas, mas acabou tendo seu destino eclipsado pela declaração infeliz de seu diretor numa entrevista coletiva no Festival, a ponto de não receber qualquer indicação para o Oscar 2012, mesmo sendo um filme de qualidade superior à maioria dos indicados a melhor filme.

Nada há de supérfluo em Melancholia: cada cena parece ter sido pensada como um quadro para cuja composição foram convocadas distintas referências culturais, como se Lars Von Trier fizesse falar as vozes que ao longo do tempo cantaram a melancolia. Assim, no prólogo, vemos uma série de cenas em câmera lentíssima que se faz acompanhar pelo Prelúdio da ópera Tristão e Isolda, de Wagner – impossível pensar em uma música mais apropriada -, evocando com isso um aspecto proeminente nos quadros melancólicos – a lentificação, o peso insuportável da vida –. Uma dessas cenas é a reprodução de uma pintura de John Everett Millais, intitulada “Ofélia”, que se encontra na Tates Gallery. Na cena, Justine toma o lugar de Ofélia no ato suicida. Já no primeiro capítulo, durante a festa de casamento, quando Justine já está à beira do colapso, assistimos à substituição furiosa que a ela faz dos quadros expostos na biblioteca do cunhado, trocando a arte abstrata, moderna, clean, por quadros que têm como referência a morte – seja na forma do frio da neve, do suicídio, do assassinato –. O filme tem sempre o fim como horizonte: o fim do sentido, o fim da vida, o fim do mundo. Realizado após a morte da mãe, que lhe revela nos últimos momentos que seu pai não era quem ele pensava ser, o que o levou a enfrentar uma profunda depressão, Melancholia parece ser a maneira como Lars Von Trier tenta dar conta dessa reviravolta em sua vida.

Os dois capítulos que sucedem ao prólogo nos apresentam duas irmãs, Justine e Claire, e como cada uma se posiciona no mundo e irá responder à perspectiva iminente do fim. Quer esse fim seja subjetivo, como no caso de Justine, quer ele venha do exterior, como se dá para Claire, o que vemos são sujeitos tendo que lidar com a finitude de sua condição.

No primeiro capítulo, dedicado a Justine, vamos acompanhar seu desmoronamento progressivo durante a festa de seu casamento. Pouco a pouco Justine corta todos os vínculos que a mantinham presa ao mundo da normalidade. Nada mais faz sentido para ela. Assim, seu casamento, seu trabalho, a relação com os pais e com a irmã são esvaziados da função de dar consistência ao seu mundo. O que resta ao final é um corpo inerte, com um peso insuportável, na medida em que abandonado, caído do simbólico que poderia conferir-lhe leveza. Trata-se aí da aniquilação subjetiva característica dos quadros depressivos.

O segundo capítulo, dedicado a Claire, contrasta com o primeiro na medida em que Claire pode ser considerada uma pessoa normal: mãe atenciosa, dona de casa diligente, esposa delicada, irmã cuidadosa, ela parece ter os pés firmemente plantados no chão. E por isso mesmo ela é a única a se angustiar com a aproximação de Melancolia. O marido, com sua fé na ciência, encontra-se entusiasmado com o espetáculo que será a passagem do planeta pela Terra. Mas Claire teme a colisão e quando fica patente que esta é inevitável, ela entra em pânico. Esta inevitabilidade acaba por apaziguar Justine, que a partir de então parece ser a única pessoa lúcida e a única a poder dar o suporte necessário a Leo, seu sobrinho, para o enfrentamento do momento final.

Filme belíssimo, Lars von Trier parece concordar com Lacan quando este afirma que o belo é a última barreira contra o horror do real.

RUTH JEUNON

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Cette entrée a été publiée le 2012/04/13 par dans Cinema & Psicanálise, et est taguée , , .