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Cinema & Psicanálise de outubro

Nesta sexta-feira, 14 de outubro, temos encontro marcado para mais uma sessão de Cinema & psicanálise. O filme, A Fita Branca, se desenrola em uma aldeia alemã antes da Primeira Guerra Mundial. Entretanto há um quê de atemporalidade e universalidade, evocando algo que nos toca, ao mesmo tempo em que parece não nos dizer respeito. Como se fosse uma fantasia, um sonho ou um devaneio.

Os comentários são de Teresa Sampaio e a sessão tem início às 20h.

Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte, 144 min, 2009 (Áustria, França, Alemanha, Itália). Direção: Michael Haneke. Com: Susanne Lothar, Ulrich Tukur, Burghart Klaubner, Josef Bierbichler.

Um arame quase invisível é colocado na entrada da cidade com o intuito de fazer o doutor da aldeia cair do cavalo. Quem teria motivos para tal ato¿ Este é o primeiro de alguns crimes e o diretor nos fornece apenas uma pista: crianças e adolescentes estão sempre presentes na hora e no local dos tais fatos.

Este poderia ser um filme policial, já que começa com um crime e esperamos descobrir os culpados. Entretanto, somos atropelados enquanto espectadores/investigadores pela descoberta de que todos são culpados. O diretor nos mostra isso às avessas: não aparece nenhum culpado, mas sabe-se que todos o são.

A questão da culpa serve aqui de mote para uma discussão mais ampla sobre a pulsão e seus destinos. Existe, no cerne da civilização, uma contradição de difícil contorno, entre pulsão e interdição. A pulsão visa satisfazer-se, enquanto a interdição é condição para que a civilização subsista. Apesar dos avatares da pulsão, nenhum sujeito escapa de tal desconforto. Por mais que se empurre a pulsão para os subterrâneos da civilização, ninguém está livre da culpa, mesmo não se sabendo do quê, o que acontece em grande parte dos casos – a culpa está lá e nem sempre sabe-se do quê. Sabemos que “há distância entre intenção e gesto”. Essa distância é a linha invisível que não devemos transpor. Se apenas uma linha invisível separa a pulsão do crime ou do pecado, os homens precisam criar leis, mandamentos, que se organizam em sistemas – o direito e a religião, tentando dar alguma consistência a esse espaço tênue e fluido que separa a intenção e o gesto, a fantasia e sua realização. É assim que matar, trair, roubar tornam-se crimes e/ou pecados, ou seja, a lei precede o crime e os mandamentos instauram o pecado. Quanto mais o sujeito necessita se punir, maior a pulsão. Quanto mais santo é o santo, maior a tentação.

As crianças e adolescentes aparecem em muitas sequências, como espectros vagando, espiando. Temos uma certa dificuldade em distingui-los; figuras esguias, em preto e branco, elas não demonstram sinais de vida: alegria, algazarra, namoros, angústia, desespero. Eles parecem porta vozes da justiça e da lei moral, em uníssono. Elas obedecem ou contrariam os pais¿

Não conhecemos os nomes das pessoas mais importantes da aldeia, que são: o pastor, o médico e o barão.

O pastor é a caricatura da moral sexual civilizatória. Ele pune os filhos utilizando-se de castigos físicos e humilhações. A fita branca deve ser usada até que o ‘adestramento’ das crianças seja concluído. A fita branca é o signo da pureza e da inocência; a cada indício de que há sexualidade nas crianças, elas são severamente punidas. O pastor não é um pai que tem algo a passar para os seus filhos. A sua relação com a lei não é dialetizável. Ele é a Lei. Não há espaço para que as crianças desejem, pensem. Por isso as crianças calam e passam ao ato. O pai quer exterminar o desejo e consequentemente extermina o sujeito. O diretor representa isso através da indistinção e do vagar das adolescentes como se fossem mortas vivas, indiferentes depois de cometerem atos de violência.

Se o Pastor se confunde com a Lei, o médico encarna o mal. Suspeito de ter assassinado a mulher, inflige humilhações à amante, mantém relações incestuosas com a filha. A presença desse médico com traços perversos, de certo modo alivia o mal estar crescente na aldeia. O mal é o meu próximo, não eu. Uma vez punido, extirpado daquela sociedade, eles podem acreditar na fita branca.

O barão desperta o ódio pelo poder que representa. Os moradores dessa estranha e ao mesmo tempo familiar aldeia, buscam atingir o barão como por tabela: o filho é sequestrado, a mulher vai embora. Ele parece, entretanto, inatingível, tudo pode ser recuperado, menos o amor da sua mulher.

Eclode a primeira guerra. Não há como extirpar o mal, a guerra é a continuidade do filme. Como pensou Homero, nas Asas do Desejo, de Wim Wenders, “a paz nunca rendeu nenhuma epopéia”.

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