Des Nouvelles

Blog de l'Alliance Française de Natal, Brésil

Cinema & Psicanálise

Comme d’habitude, às segundas sextas-feiras de cada mês acontece no auditório da Aliança Francesa de Natal o encontro Cinema e Psicanálise, promovido pela Escola Brasileira de Psicanálise, delegação do RN. Em Abril, o filme Violência e Paixão de Luchino Visconti.

9 DE ABRIL DE 2010, 20h30 | Conversation Piece, Luchino Visconti, 1974. Burt Lancaster, Helmut Berger, Silvana Mangano, Stefano Patrizi, Claudia Marsani. 121 minutos. Sinopse: Roma, anos 70. Um professor aposentado vive solitariamente, cercado por quadros e livros, numa luxuosa mansão. Sua rotina é quebrada quando aluga o andar superior para uma marquesa, que traz com ela o amante, a filha e seu namorado. Com suas atitudes vulgares, incômodas e inusitadas, os inquilinos transformam a monótona vida do professor num caos.

+ Comentário ao filme, por Tereza Sampaio

Este é um filme profundamente intimista. Para ressaltar esse efeito, o drama se desenrola em ambiente fechado, sem nenhuma cena externa. O que vemos da varanda do apartamento é uma imagem criada pelo cenógrafo e trabalhada por Visconti. Podemos perceber uma artificialidade proposital nessas imagens. Nada neste filme, nenhuma cena, nenhum olhar, nenhum gesto está ali por acaso.

Conversation Piece, título escolhido por Visconti, é um gênero de pintura inglesa, do século XVIII, que retrata famílias posando em suas casas ou em lugares de passeio. ‘Este filme é quase uma Conversation Piece, um retrato de família,’ nos diz Visconti.

Roma, 1970. Num apartamento com paredes repletas de retratos de família, mora o solitário Professor, interpretado por Burt Lancaster, obcecado por esse gênero de pintura. Ele leva uma vida sem conflito, sem desejos, pois falta a presença do outro, de alguém com quem falar ou de quem discordar. No momento em que alguém fala, instala-se o mal-entendido, surge um mal-estar. No apartamento impera o silêncio , a arte substitui a vida.

Os seus quadros, ele trata cuidadosamente, com afeto e zelo. Tem suas preferências e suas infidelidades por um ou outro quadro, como diz em algum momento. Com as suas famílias penduradas nas paredes, objetos mudos, para serem contemplados e estudados, ele pode viver em harmonia, sem o barulho dos outros. Na Conversation Piece , a teatralidade das poses dá a ilusão de certeza e garantias. O filme mostra a certeza, o ideal de família e da sociedade e o desmoronamento deste ideal. É um retrato da solidão e da impossibilidade do encontro.

Na abertura do filme escutamos um estrondo. O estrondo é um marco, é o signo de que há um antes e um depois. O estrondo é o som que anuncia a chegada dos outros personagens, inquilinos quase forçados.

Assim, quatro inquilinos invadem a vida do Professor e conseguem instalar-se no apartamento do andar de cima. Eles representam duas gerações e os seus costumes: a Marquesa, símbolo da burguesia decadente e o seu marido, oculto no filme, que sabemos ser um neo-fascista; Konrad, jovem e belo amante da Marquesa, assim como Lietta e o namorado, são símbolos da nova geração, a geração dos conturbados anos 70. Eles levam para a vida do Professor o amor livre, sexo e drogas. Estes personagens o obrigam a ver o que anda ocorrendo no mundo.

Na primeira cena externa, a Marquesa abre a porta da varanda do apartamento. Ela abre a janela para o mundo externo. O Professor e nós espectadores vemos as ruas de Roma, os seus tetos e alguns palácios, de um modo artificial, como se fosse uma montagem da arquitetura barroca da cidade. O novo e o antigo se confrontam o tempo todo. Ambos têm um denominador comum: a desestruturação e decadência da família e da sociedade.

O estrondo, a rachadura, a janela aberta são os primeiros anúncios de que os seus futuros inquilinos vão forçar o protagonista a sair do casulo. Não sabemos é se ele pode suportar isto.

Sem perceber, o Professor se envolve: o estrondo quebra o silêncio; uma rachadura surge no teto do seu apartamento, como uma metáfora do declínio dos retratos de família. No século XIX esse gênero de pintura vai realmente entrando em declínio .

Algo semelhante vai ocorrendo com a vida do Professor: os quadros mofam por causa da infiltração provocada pela rachadura, os inquilinos fazem reformas no apartamento de cima, passam a ser a sua nova família e rapidamente entram também em decadência.

Konrad interessa-se por arte, isto o aproxima do Professor. O personagem é bastante andrógino; Visconti nos dá a ver uma troca de olhares entre Konrad e o Professor, que deixa dúvida quanto à natureza dos sentimentos destes. Parece ser um olhar de desejo que se transforma em amor de pai para filho. Afinal, todos nessa família são um tanto incestuosos. As drogas, o amor livre, ressaltam a impossibilidade do encontro entre o Professor e a nova geração. Mas também há uma impossibilidade no encontro dele com a mulher, como vemos num flashback. Tampouco os garotos são poupados da solidão, a impossibilidade do encontro também marca a relação entre eles. Todos os personagens são sozinhos e desamparados.

Há uma prevalência do olhar no filme, quase com um acento voyeurista: o Professor contempla as suas pinturas , era essa a direção para a qual se voltava a sua libido. Quando Konrad entra em cena, há uma certa fascinação entre os dois. O Professor assiste a cena em que Konrad toma banho. Dormindo, o Professor lhe cobre carinhosamente. A posição em que ele dorme pode ser a de uma criança, mas também parece feminina. Visconti mantém essa ambigüidade com relação aos dois. Ele deixa uma fenda nesses olhares enigmáticos, portanto, nestes momentos, estamos também dentro do filme.

Num certo momento o Professor os convida para um jantar. A mesa está perfeita, eles posam de família nuclear: pai, mãe e filhos. Visconti considera esta a cena mais linda do filme. Diz ele: ‘Esta cena é quase uma Conversation Piece; permite estas personagens de se confrontarem, dizendo as verdades mais atrozes: é um retrato de família que se transforma numa refeição trágica’.

A rachadura da família aparece clara nessa cena. A rachadura é a verdade jogada na cara de cada personagem; é assim que Visconti mostra o abismo que os separa.

O desfecho desse filme impactante e de extrema beleza plástica vai mostrando a sua face trágica, ao som da música de Mozart. Assim como a vida, ele não tem um final glorioso. Podemos nos arriscar a dizer que Visconti vislumbra o declínio da família estruturada no modelo nuclear e os efeitos para as gerações seguintes da chamada revolução sexual. As novas formas de relacionamentos da contemporaneidade tampouco nos livra da solidão e da decadência. Ele não parecia ter nenhuma ilusão quanto a isto. “Conto essas histórias como eu contaria um Réquiem, pois me parece mais justo e mais oportuno narrar as tragédias.
Nos meus filmes, as relações chegam ao seu ponto máximo de desespero. Minhas personagens, por escolha própria ou por obrigação devido às circunstâncias, chegam ao ponto de se encontrar face a face consigo mesmas. A proteção, oriunda do amor ou da família, pode faltar um dia, e os privilégios do poder e do dinheiro não são suficientes para nos dar proteção”. É o que diz Visconti sobre Violência e Paixão.

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Cette entrée a été publiée le 2010/04/05 par dans Aliança Francesa de Natal, Cinema, Cinema & Psicanálise, Natal.
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